O Resultado da perfeição imposta!
Você respira, prende, faz pose, esbanja um sorriso que esta estilhaçado por trás do batom vermelho... "Pare com isso!" você grita, e empurra, imprensa, sufoca as lágrimas e o grito que estão se derramando e projetando-se para fora, quase descontrolados. Engole o maldito nó na garganta, sente o gosto amargo da indigestão de quem você realmente é... Mas por fora você ta quase lá, esta feliz, linda, sonhadora e perfeita assim como tem que ser.
Você entra, escolhe, sofre.
Prova, respira, prende. Sorri!
Tira, respira, engole...
Agora só falta a cinta, e vamos lá, é assim mesmo, você esta quase lá, essa é a hora garota, brilhe, seja perfeita.
Banho, seca, espelho, engole o nó... Enjoa, sanitário, escova, espelho, sorria.
Você se senta e permite que alisem, pintem, corte e repique aquilo do que mais gostava... Você sorrir ao ver a imagem caricaturada da perfeição, você esta quase la.
Você se reflete mas não se vê, se maquia sem ao menos se perceber, você cobre a olheira da noite passada, as sardas manchadas embaixo de seus olhos e empalidece a sua casca. Delineia, retoca, pinta e aprimora o que você tem, sem ao menos olhar o que há por trás de toda essa farsa.
Olhos? Escuros! Delineia, puxa, estica, aumenta os cílios, perfeito!Lábios, bom garota olhe na revista qual combina mais?
Você deve parecer com uma dessas deusas perfeitas. Rosa! Pinta os lábios, esta quase pronta, quase la!!
Você se prende, esmaga e marca.
Apertado demais... Mas continua garota.
Você olha a sua capa e desliza agora sobre aquilo que costumava ser seu corpo...
Respira, prende. Zíper! Salto!
Você levanta e se reflete...
Você nem se reconhece, não acha nenhum traço de quem um dia foi... Mas é assim garota, as mulheres sofrem pra serem bonitas, você precisava melhorar para entrar no padrão, ainda faltam alguns quilinos para isso, mas nada como uma boa cinta aperta tudo, enquanto você não se livra deles.
Treine o sorriso, seque essa lágrima antes que manche a sua maquiagem, você tem gente lá fora para enganar, mostrando o quando é feliz e perfeita!
Perfeita, perfeita, perfeita, perfeita... Nunca!
Nunca perfeita pois eu me perdi, tentando não me perder...
Me perdi em meio a regras, exigências, padrões que não eram meus. Segui pessoas que eu não gostava, e não gostavam de mim, mas ela faziam bem a minha "imagem". Dancei fora do ritmo, me perdi na coreografia. Deslocada!
Beijei, e me entreguei, para aqueles que nem ao menos lembraram meu nome, mas ajudou a subir a popularidade...
Eu me destruí, me fiz oca, me fiz vaga, me fiz manipulável, me fiz essa ou aquela mas nuca eu mesma.
Eu não ouço mais meu coração, não o sinto bater, estou no automático e não sei desconfigurar isso.
A noite acaba e eu volto, fecho a porta, mais uma noite! Jogo os sapatos por ai, o vestido eu deixo por lá, e a maquiagem se escorre borrando meu rosto enquanto me lavo, enquanto me descaraterizo. No fim de tudo, me encaro e não sei quem vejo, mas lá esta ela...
Olheiras, olhos vermelhos, pele pálida e com as pintas abaixo dos olhos...
Camisa maior que ela, pernas nuas, magra... Mas não como deveria para ser perfeita!Ela sorri e eu me assusto, aquele sorriso me lembra alguém, ela me olha e mexe no cabelo, isso me soa familiar, ela fala "oi" e eu choro.Aquela sou eu, ou o resultado de mim, aquela é quem eu me tornei tentando ser aceita, aquela é um fragmento, uma molécula de quem eu sou.
Pra que tanta coisa, pra que tanto choro, pra que tanta cobrança, pra que ferir, pra que fingir, pra que se transformar em quem não se é?Bom eu não sei, mas eu vejo, ouço e leio que a perfeição é isso, é ser quem eu sou, quando não sou quem eu sou. Me disseram que o 48 é o numero dos esquecidos e excluídos, mas que o 38 era para os perfeitos, aceitos e amados.Quem amaria um 48, quem ficaria com ele?
Ninguém quer um 48 se pode ter o 38, o perfeito?
Eu volto pra cama, remédio, coberta, respiro, acabou não quero mais ser perfeita.
Pra mim já chega!
Enfim silêncio!
Abnara Lopes
Abnara Lopes

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